Ele atravessou a casa correndo com a mais nova aquisição que ele fizera durante a tarde. Colocou o LP pra tocar direto no lado b. Ele já sabia que musica daquele LP procurado por anos ele queria ouvir. Foi como viajar para um tempo longínquo ao ouvir os primeiros acordes da guitarra.

-Hugo, trouxe uma coisa pra você. – dizia, enquanto ia entrando no quarto, o homem que aparentava uns quarenta anos e tinha nas mãos um pacote embrulhado com papel de presente.

Ao ouvir isso o pequeno Hugo levantou-se de um pulo da cama e correu para abraçar as pernas do homem que acabara de entrar. Era o cozinheiro do orfanato e, aparentemente, a única pessoa que realmente se importava com ele.

- Deixa disso, menino. Abre logo o presente.

Era uma vitrola e com ela vinha também um LP. Pink Floyd, Wish you were here.

- É o meu preferido.  E a minha faixa preferida é a segunda faixa do lado b.

Com toda a calma o homem colocou o LP na vitrola e posicionou a agulha exatamente nessa faixa.

Ele continuava ali parado, admirando o movimento circular do disco, como se seu espírito não estivesse realmente ali. E me atrevo a dizer que não estava mesmo, atrevo-me a dizer que o espírito dele estava perdido entre algum lugar do passado e o desejo de que aquele homem ainda estivesse ali.

“How I wish, how I wish you were here…”


William


Monday 14 de May de 2012, 03:09 |
Posted in: Hugo
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Talvez por ter nascido no extremo sul, onde os invernos são rígidos e os ventos cortantes, talvez por isso ele tenha o frio em si, como parte da própria alma. Era cada vez mais claro nos atos e nos pensamentos dele. Mas nem sempre ele fora assim, houve um tempo que ele  era aconchegante e quente mesmo no meio do mais frio dos invernos, entretanto em algum momento do passado esse frio, que já era natural do seu ser, foi externado e ele tornou-se mais uma dessas brisas gélidas de inverno.

É necessário um desses sóis de maio para torná-lo quente mais uma vez, para quebrar o gelo impresso em cada detalhe do seu ser. Ou talvez uma simples xícara de chá já possa ajudar a despertar o espírito nessas frias noites de inverno.

 


William


Monday 30 de April de 2012, 16:10 |
Posted in: Hugo
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Era uma cena comum observá-lo sentado no parapeito da janela, aquele era o local preferido dele no apartamento ainda que este ficasse no quarto andar. Era inverno e o sol começara a bater na janela há pouco, Hugo, assim como a maioria das pessoas, tentava aquecer-se um pouco enquanto observava a grama do canteiro crescer. Obviamente ele não estava fazendo exatamente isso, porém era isso que ele diria se alguém perguntasse o motivo do silêncio afinal, era difícil ou talvez apenas trabalhoso demais falar sobre frustrações de uma vida onde, por um longo período de tempo, nada estava acontecendo. Era fato que a vida havia melhorado desde que ele se mudara para  casa da Marina e começara a trabalhar no Clube do Chá.

E foi durante esses pensamentos perdidos que ele ouviu a porta do banheiro bater.

- Marina é você?

- Não vem aqui Hugo!

A voz dela tremia em choro e quando ele encostou o ouvido na porta do banheiro pode ouvir quando ela vomitou entre soluços. Depois de alguns minutos a descarga foi acionada e uma Marina com o rosto molhado pelo choro abriu a porta e caiu nos braços dele.

- Eu sou gorda!

- Sério isso Marina? É sério que tu tá chorando por isso? Mina sem noção.

- Cala boca Hugo!

- Acho que tu tinhas que parar com esse negócio de vomitar, não é legal.

Ela olhou pra ele com o rosto inchado do choro fazendo cara de quem não estava sendo compreendida. Era estranha a amizade daqueles dois, mas uma coisa era certa, nada podia superar o carinho que um sentia pelo outro.

- Ah vem cá sua esquelética do inferno – abraço – vamos, eu te pago um chá de jasmim.

E assim, depois de alguns minutos pra ela se recompor, os dois desceram as escadas de mãos dadas em direção ao Clube do Chá.

 


William


Thursday 19 de April de 2012, 01:04 |
Posted in: Hugo
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O outono chegou soprando esperança nos corações, um vento que veio sabe se lá de onde. O outono trouxe consigo o aroma doce e já conhecido do café, mas dessa vez ele veio mesclado com um cheiro novo, um desses cheiros que veio pra ficar, que veio pra fazer casa em cada tarde de outono, em cada fim de domingo, em cada centímetro da minha pele.

Não é de hoje que concordo com Quintana quando ele diz que os caminhos do outono não levam a parte nenhuma, mas, quem disse que eu procuro um ponto de chegada? Afinal a beleza está no caminho, a eternidade está no caminhar. E quem sabe nesse outono mais uma vez meus passos tenham companhia.

 


William


Monday 02 de April de 2012, 03:56 |
Posted in: Outono
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O sol rompeu lento a linha do horizonte e podia se ver resquícios da noite ainda no rosto e nas roupas dele.  Ela estava escorada num poste de luz com o cigarro entre os dedos, olhando pro céu que clareava com o cabelo crespo solto e os all stars vermelhos encharcados com uma mistura de bebida alcoólica e sabe-se lá mais o que. Ele estava sentado no meio fio com os cabelos vermelhos no rosto e os tênis encharcados da mesma mistura. Ele puxou o ultimo cigarro junto com os fones de ouvido de dentro do bolso. Tateou um pouco os outros bolsos da calça e:

- Marina, me passa o fogo.

- Não fala comigo, Hugo! – o isqueiro voou na cabeça dele – Maldita hora que eu resolvi sair com você. E cadê esse ônibus que não chega?

- Beija metade da festa e desconta a frustração em mim?

- BICHA!

- VADIA!

Cada um voltou para o seu universo particular de novo. “As pessoas são muito decepcionantes” era o pensamento que vagueava pela cabeça dele sempre que o álcool o permitia um pensamento mais lúcido. E não era sobre ela que ele pensava, já estava acostumado com os xingamentos frequentemente trocados com a melhor amiga, ele pensava sobre as pessoas em geral. Era como se, desde pequeno, as pessoas houvessem combinado de traí-lo, deixá-lo de lado  e decepcioná-lo em geral. Não que ele ficasse se lamentando por isso, em geral ele nem pensava nesse tipo de coisa. Mas quando parecia que as coisas começavam a dar errado de novo esse pensamento vinha, e ele acabava assim, jogado num meio fio qualquer com um cigarro na boca e o corpo inteiro fedendo a bebida.


William


Tuesday 20 de March de 2012, 05:30 |
Posted in: Hugo
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O quarto dele tinha um cheiro forte que misturava o café com chá preto e cigarro. Num volume baixo, quase como um ruído Elvis Presley ajudava a compor o cenário aconchegante e familiar. As estantes abarrotadas de livros  e caixas de chá, algumas ainda fechadas, lotavam as paredes exceto por um armário aéreo num dos cantos e um quadro em outro. Não posso deixar de comentar sobre esse quadro, que chamava atenção por ter uma lua imensa no centro e um céu azul escuro ao fundo.

Ele estava sentado no parapeito da janela com uma caneca de café e um cigarro entre os dedos, com a mão livre ele colocou o cabelo vermelho pra trás e então tragou o cigarro soltando a fumaça devagar. Era possível ouvir o cérebro dele trabalhando enquanto ele admirava a fumaça do cigarro se dissipar através da rede de proteção da janela.

Desde que começara a fumar, e me arrisco a dizer que esse foi um dos motivos para começar, a fumaça exercia sobre ele um fascínio que poucas outras coisas conseguiam exercer. Não raro podia se ver os olhos dele perdidos em algum lugar entre a fumaça que se dissipava. Ele gostava da efemeridade e da imprevisibilidade daquilo.

Seus olhos percorreram descuidadamente a rua e foram cair no letreiro neon no fim da rua, que dizia em letras garrafais “Clube do Chá”. Era o único lugar realmente iluminado àquela hora e, diga-se de passagem, era um lugar bem interessante aquela lanchonete. Não se deixe enganar pelo letreiro por dentro o lugar era aconchegante e antigo. O ar tinha sempre um cheiro forte de chá e incenso. No todo o lugar fazia jus à dona, uma senhora hippie que atendia os clientes de pés descalços.

Depois de observar o movimento do café um pouco, ele tomou o ultimo gole de café, pulou para dentro do quarto, desligou a vitrola, pegou um casaco e rumou-se às panquecas com geléia de morango do Clube do Chá. A fumaça que desprendia do chá de jasmim também o fazia pensar.

 


William


Wednesday 14 de March de 2012, 14:45 |
Posted in: Botequim,Hugo
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Quero tranquilidade. Simples assim, aliás, simplicidade é outra coisa de suma importância. Quero passos lentos ainda que largos, dedos que se enredam em cabelos, cheiro de café numa manhã chuvosa de outono, tardes preguiçosas de inverno, sorvete de flocos no verão e cabelos bagunçados pelos ventos da primavera. Mas por não viver de calmaria quero as vezes tempestades turbulentas no fim da tarde, crepúsculos melancólicos, quero que turbilhões incontroláveis me atinjam periodicamente, apenas para que a calmaria possa ser devidamente valorizada.

Mas acima de tudo isso eu quero a lua. Isso mesmo, a lua. A lua em acordes de sanfona, a lua na cor dos olhos, no vento que deixaste no ar impregnado do teu perfume eu quero a lua.

 


William


Sunday 04 de March de 2012, 13:30 |
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Inspire-se. E o mundo girou, o ano terminou, a morte chegou, o bebê nasceu, a bailarina dançou, a borboleta voou, a terra tremeu, o vento soprou, a folha caiu, a sirene soou, o fogo apagou, o copo virou, a paixão acendeu, a esperança morreu, a amizade voltou, o sol se pos. Expire-se

E comece tudo outra vez.

 


William


Wednesday 29 de February de 2012, 04:42 |
Posted in: Cotidiano
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De mês em mês ela vem me fazer companhia, chega sorrateira e na maioria das vezes nem avisa, e de um dia para o outro se mostra me olhando da janela com olhos cobertos de um desejo tão profundo que é capaz de assustar.

E então a vida vira-se do avesso, não que o avesso seja errado, por assim dizer, o único problema é que essa desordem traz consigo uma infindável inquietação. E essa inquietação faz com que cada mínimo detalhe se potencialize de tal forma a tornar-se eterno.

É impossível não amar nesses dias de lua cheia. É impossível não odiar nesses dias de lua cheia. É impossível não se entregar aos olhos de desejo com que a lua me beija.

 


William


Tuesday 07 de February de 2012, 02:38 |
Posted in: Lua,Marcas,Noturno
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Escrevo na, quase vã, tentativa de tomar para mim as rédeas de mim, dos meus pensamentos, dos meus sentimentos e dos meus atos. Digo que a tentativa é vã, pois, apesar de ter as rédeas em mãos, trago-as frouxas afinal devo admitir que também não sei que caminho seguir.

O cavalo trota no compasso do vento e já não me importo com o caminho. Sei que esses caminhos são cheios de curvas e por vezes me vejo andando em círculos, mas pode ser que numa dessa curvas alguns caminhos se cruzem nem que seja só por uma encruzilhada, uma passagem ou quem sabe eles possam caminhar juntos por um tempo. Mas isso já é outro assunto, escrevo pra não me perder de mim e me perco escrevendo.


William


Tuesday 07 de February de 2012, 02:11 |
Posted in: Cotidiano,Lua,Marcas
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